Toponimia e História  

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Qtª do AbadeÉ forte a presunção de que a povoação já teve um outro topónimo de aplicação anterior que se julga ter sido Zafar. Se bem que de difícil confirmação, por carência de “fontes de Hypocrene” (água pura), tem ao menos o condão de nos esboçar uma população que nunca desapareceu de todo nesta região da grande retorta (curvatura acentuada) do rio da Pega, que circunda a capela da Senhora da Menina, na margem esquerda, próximo da qual se ergueu sobranceiro o Castelo do Safurdão donde se avista, para SE, o cume da Capela de Santa Bárbara de Cheiras { (b. lat. planaria, de planu., através da semântica planaria > planeira (Séc. X) > chãeira > cheira, com que a topografia é de todo concordante, pois a povoação de Cheiras, na lógica do seu étimo, situa-se na chã (planície) pouco ondulada em que corre o Ribeiro do Telhal (sub-afluente) e Ribeiro de Pinzio (afluente) do rio das Cabras) }, e, para Sul, o sítio de Outeiro do Moio e da Nave Fria, percorridos pela Estrada Pinzio-Pinhel.

Considera-se ainda que o topónimo desta antiga freguesia (Safurdão), até possa ser muito mais antigo que o de Lamegal, na similaridade do que acontece com Pomares e Argomil, em que a povoação mais antiga mas em regressão cede lugar à jurisdição da mais progressiva e moderna. Pois, se atentarmos, em 1241, o bispo de Viseu D. Gil, considerando a utilidade da Sé viseense “et bonus satatu terrae” (ou seja, quanto nos parece, o bom promissor desenvolvimento local, bem como os usos das igrejas do termo de Pinhel que abrangiam estes lugares), fundou a paróquia de Santa Maria do Lamegal, assinalando-lhe os limites bastante dilatados denominados “aldeias”, entre os quais “aldea(m) de Zafurdom” (Zafar: âtun), pelo que este nome parece aquilatar-se como antropónimo, como é o de muitas outras “aldeias” próximas. E daí a admissibilidade do nome de uma escrava Zara ou Sara) o castelo da moura encantado, antes do séc. XII, i. e., antes das arremetidas de D. Fernando, o Magno de Leão, que conquistou toda a Beira, em 1063-1064 e fixou em Coimbra o 1º Governador cristão, D. Sisnando.

Safurdão, antes de 1839, foi ainda do conc. do Lamegal e, como Couto, doado por D. Afonso III a seu genro D. Pêro Anes, casado com a sua bastarda (fidalga) D. Urraca Afonso, passou por todas as vicissitudes senhoriais deste lugar. Repisando, D. Abril abeirou-se e (re) povoou-o na actual posição, só que no seu interesseirismo descomedido, não tarda a fazer dela uma honra, que nada tributava à coroa. Ao morrer num combate civil, nas lutas da conspiração contra D. Sancho II, muitas das Póvoas circunvizinhas, passaram então a D. Urraca Abril (sua filha), e desta a seu filho D. Pedro (Pêro) Anes, este, ao morrer deixou a herança da honra a D. Urraca Afonso (Tarouca), sua viúva e filha bastarda de D. Afonso III. Não obstante, D. Dinis, apesar de ser ainda viva esta sua meia-irmã, não contemporiza nem transige -“dura lex sede lex” - e, pelas Inquirições, ordenou a devassa de muitas honras (duvidosas), ainda que se admita possível que o honramento houvesse persistido com os herdeiros dessa princesa (havidos de segundas núpcias):

Com efeito, o lugar de Safurdão foi deste couto e propriedade destes nobres, pois a referida princesa, quando enviuvou, herdou-o do marido: “assim o trage dona Orraca”, cf. as Inquirições dionisíacas, sendo, no entanto, assinalável também que, quando os herdeiros de D. Urraca fizeram o arrolamento e a participação dos bens desta, em 1334, no mosteiro de S. Francisco, em Lamego, não citam Lamegal nem o Safurdão no instrumento das partilhas, lavrado pelo tabelião real da cidade de Lamego, ou porque já tivessem sido doados a algum Mosteiro para encomendação das suas orações e “bem-de-alma” ou porque eles os omitiram de bona vel mala fides, esquivando-se à tributação, repetindo, por ironia, os “bons exemplos” dos seus antepassados.

Há, na área, denominações interessantes de sítios, tais como: Outeiro do Moio que poderá assinalar uma elevação de terreno onde terá existido um pisão, a exemplo do dedutível Outeiro da Mó, para moer cereais ou trituração de minérios ou ainda, bem menos provável, quando tributável, pudesse render 60 alqueires: Quinta do Abade, junto à confluência do Ribeiro do Telhal com o Ribeiro de Pínzio, na margem direita do primeiro.

Assinala-se ainda o antigo e importante carreteiro pelo Sobralhal (vértice geodésico), provindo do Freixo e os sítios de Seara (ou Folha), Cerro, Bravos, Cancelinho (do lat. cancellus, limites, barreira, profusão de terrenos delimitados com muros de pedra), Tapada da Fidalga (alusão possível a D. Orraca!), Porto da Atalaia (passagem da Ribeira das Cabras), Candal (um outro vértice geodésico donde se terão emitido sinais com tochas ou fachos), Quinta do Ramalheiro e Moinho de Moch.

No sentido Leste, dirige-se o caminho para Salgueiral, Senhora da Menina, Penhaforte, Pomares, Carvalhal e Trancoso. Para NE, pela Quinta da Saudade, segue o antigo caminho para Atalaia; para Norte, a estrada para Pinhel e para Sul a ligação a Pínzio, pelo que, em termos de acessibilidade, o Safurdão mantém uma posição ímpar e reúne, indubitavelmente, óptimos vestígios do seu real valor ao longo da história das beiras que bem, merecem ser revalorizados.

(A Guarda – sexta, 17 de Março de 2000 – António Carreira Coelho)

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